Governo Lula decide entre ajuste fiscal e aposta desenvolvimentista
Ministros da Fazenda e do Planejamento defendem aprofundar o ajuste nas contas públicas, enquanto veteranos do PT, como Guido Mantega e Aloizio Mercadante, pressionam por uma linha desenvolvimentista.
O rumo da política econômica do novo governo Lula, eleito para o quarto mandato após vencer o segundo turno no domingo, ainda está sendo definido em reuniões no Palácio do Planalto e no Palácio da Alvorada. A decisão deve resultar do confronto entre a atual equipe econômica, favorável à manutenção do ajuste fiscal, e um grupo de quadros históricos de governos do PT, que defende uma orientação mais desenvolvimentista.
No dia seguinte ao segundo turno, Lula recebeu no Planalto o ministro da Fazenda, Dario Durigan, e o ministro do Planejamento, Bruno Moretti. Os dois defendem a continuidade e o aprofundamento do ajuste nas contas públicas, incluindo o aperfeiçoamento do arcabouço fiscal. As conversas sobre o tema continuam, e novos encontros estão previstos.
Do outro lado estão nomes que ocuparam cargos de peso em governos petistas anteriores, caso do ex-ministro da Fazenda Guido Mantega e do presidente do BNDES, Aloizio Mercadante, que subiu ao palco no discurso de vitória no domingo. Esse grupo converge no diagnóstico de que o governo deve evitar repetir o que considera um erro cometido após a reeleição da ex-presidente Dilma Rousseff: avalia que o impeachment de Dilma decorreu do ajuste fiscal conduzido pelo então ministro Joaquim Levy, e não do desequilíbrio nas contas públicas ocorrido sob a gestão de Mantega.
Antes da eleição, a equipe econômica já havia sinalizado ao mercado financeiro, de forma cautelosa, diretrizes do ajuste pretendido, como a revisão do arcabouço fiscal para tornar as regras menos permissivas, a análise da indexação de despesas ao salário mínimo e a reavaliação de renúncias e incentivos fiscais concedidos pelo governo.
As divergências entre os dois grupos também atingem a avaliação sobre a política monetária. Integrantes da ala desenvolvimentista acusam o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, de tentar condicionar a política fiscal a uma taxa de juros que consideram excessivamente alta, e rejeitam a leitura de que os juros elevados seriam consequência do descontrole fiscal.
A disputa entre os dois grupos deve influenciar também a escolha de nomes para compor o novo governo. O Banco Central tem dois cargos vagos na diretoria, e outros dois devem abrir em fevereiro. Um dos nomes mencionados no mercado financeiro para essas vagas é o do economista André Roncaglia, atual representante do Brasil no Fundo Monetário Internacional (FMI).
Foto: Valor Econômico
No 1º turno de 2026, Flavio Bolsonaro fez 47,0% e Lula fez 45,2% dos votos válidos para presidente. O 2º turno foi em 25 de outubro, com o resultado completo no Reeleito, cidade por cidade.